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12 de out. de 2007

manual do xaveco - Como conquistar qualquer mulher em sete passos - de graça

Não sei se posso tirar uma fórmula disso mas o que presenciei certo dia é sem dúvida uma pós graduação em conquista e creio que tanto sirva para homens como para mulheres. Estava eu num vagão do metrô de São Paulo quando entrou uma garota bem gatinha com aproximadamente dezessete anos. Logo atrás veio um carinha com pinta de pagodeiro e já foi perguntando por uma pessoa em comum que ele alegava conhecer. Muito sorridente e educado a garota fingiu conhecer a tal pessoa para não parecer deselegante. Mas ele se aproveitou disso e perguntou se ela ainda estava namorando com "aquele cara". O Tiago? - a garota perguntou. É o Tiago, confirmou o pagodeirinho. É... Estou mas... - titubeou a menina. E cara não esperou e já mandou essa: Você é muito gatinha para ele. E eu sempre "paguei um pau" pra você. A menina quis saber de onde a conhecia. Do baile - ele falou. Do São José Operário? quis saber a menina. É - confirmou o garoto - Eu ficava só te olhando querendo dar um beijo nessa boca linda...

Vejam que até agora o cara já sabe o nome do namorado, que a garota não anda bem com ele, que gosta de dançar, que frequenta o salão ou algum lugar chamado São José do Operário.
E para isso ele não precisou de muita conversa. Só algumas perguntas bem colocadas. E usou de certos artifícios. Sorriso e amabilidade inicial e a educação da moça. Porque veja, mesmo se ela fosse rude num primeiro momento ele poderia alegar que só perguntou por perguntar e tentar fazer a garota pensar que o tinha magoado ou sido indelicada ou mesmo que tinha faltado com respeito com alguém que não lhe tinha feito mal algum. Apenas uma pergunta inofensiva. E mais, não lhe deu muito tempo para pensar, foi colocando uma pergunta na frente da outra e se fazendo íntimo ou conhecido da garota. Isso tudo gerou uma confiança inicial na menina que se sentiu a vontade para contar mais coisas a seu respeito despreocupadamente. Por fim, ele se declarou admirador há algum tempo e elogiou a beleza de sua boca. Duas tacadas certeiras, elogiou-lhe a beleza e lhe massageou o ego. Pronto. Campo aberto para um segundo passo:

E o segundo passo foi entrar nas amenidades que reforçam a cumplicidade:

Depois de uns segundos de silêncio em que a moça tentava assimilar aquelas emoções o garoto perguntou se ela gostava de Art Popular, um grupo de pagode que a maioria das garotinhas da idade dela naqueles dia curtia a se descabelar. Mas essa foi uma pergunta errada porque não acertou o alvo e isso significava perigo. A menina respondeu que não e mais, detestava pagode. Não tem nada a ver- disse ela - aquele bando de idiota falando de amor de dor de corno. Aí tinha um problema e o cara sabia como resolver: Perguntei porque a maioria das meninas de hoje gostam dessa porcaria. Eu odeio pagode!

Vejam que aqui o cara se contradiz porque estava vestido na melhor moda pagodeiro. Só faltava um pandeiro para se tornar uma astro do pagode! E a menina não tinha tempo para pensar porque se não notaria a discrepância. Mas não notou e ele foi mais cauteloso: Que tipo de música você gosta? - perguntou. Rock! - Respondeu a menina. E passou a listar o nome das bandas que ela gostava no que ele entusiasticamente ia dizendo... Muito louco! Putz! Essa é da hora! Show. e mudou de assunto tão logo ela terminou a lista de sua preferência. Tinha que sair da saia justa antes que a garota percebesse que estava em uma. Chegou-se mais perto e perguntou: Posso te beijar? A garota ofereceu o rosto e ele - No rosto não. Na boca. A menina ficou vermelha e sem jeito e ele se afastou um pouco. Sou tão feio assim - perguntou o cara rindo divertidamente. Não - respondeu a menina - é que eu tenho namorado... Mas você não está tão bem assim com ele. A menina ficou indecisa. Tentou argumentar que amava o Tiago, que casal tinha fase ruim... E antes que ela terminasse ele perguntou quase afirmando. Ele já te traiu!?. Ela ficou séria de novo indecisa entre aceitar aquilo como uma pergunta ou afirmação. E falou, entendendo que era uma pergunta. Acho que sim. Mas eu não estou nem aí. E o garoto emendou: Dá o troco nele. Eu te ajudo! E riu maliciosamente. Ela riu também e quando o cara chegou mais perto de novo ela falou. Mas eu nem sei seu nome. Rafael, prazer - disse ele estendendo-lhe a mão dando-lhe um beijo no rosto. Agora você conhece - e chegou mais perto.


Vamos fazer mais uma pausa. Vamos chamar essa fase de "definição do objetivo e limpeza dos impecílios". Vejam que tão logo ele conquistou a confiança da moça já partiu pro ataque. Tentou esticar assunto com o gosto musical mas foi infeliz porque errou o alvo mas definiu que queria um beijo e a partir daí usou as impressões colhidas na própria conversa para remover a resistência ao beijo que a garota não queria dar, pelo menos não na boca. E a ação dele obedece a uma intensidade exata. Quando a garota corou ao pedido do beijo ele se afastou para não lhe dar tempo de sentir-se mal. E aliviou com uma brincadeira com sua aparência. Em seguida, ao ser apresentado o obstáculo "namorado" ele insinuou maquiavelicamente que o cara a traia ao fazer uma pergunta disfarçada de afirmação. Se a garota tomasse como uma afirmação e quisesse saber mais ele simplesmente diria se tratar de uma pergunta no que ela poderia responder o que quisesse. Mas ela a tomou como uma pergunta e já desconfiava estar sendo traída. Que garota nessa idade não desconfia do namorado? E se colocou na defensiva para não se sentir por baixo. Percebendo exatamente isso o pagodeiro, agora rockeiro se ofereceu como objeto de vingança. Sem ela perceber ele induziu toda a situação. Ou deu sorte e a situação já pré existia mesmo para a garota. De qualquer forma, foi estratégico em desmanchar as resistências da garota.

A garota nesse momento estava convencida de que estava sendo traída, tinha diante de si um pretendente que a muito tempo lhe paquerava nas sombras, tinha confiança nesse cara e tinha uma certa vontade mesmo de dar o troco no "safado" do namorado que já tinha feito isso com ela. Mas, mais do que isso. Estava excitada ante a possibilidade de beijar alguém em público e alguém que mal conhecia. Estava na verdade querendo beijar o garoto e estava convencida de que isso no máximo terminaria com um beijo e pronto. O cara chegou mais perto e elogiou-lhe a beleza do rosto e o cabelo. Mas manteve uma distância. Ela não estava acuada e nem se retraiu. Mas ainda estava indecisa. Ele não esperou mais do que cinco segundos pelo beijo que não veio e se afastou de novo. Em que estação você desce? - perguntou para a paquera. Na próxima e você? - quis saber a menina. Só no final - disse ele com um ar de quem perde alguma coisa. Mas não desistiu e reclamou. Poxa! Você já vai descer e vou ficar sem "meu" beijo... Ela olhou para os lados e não reconheceu ninguém e ao perceber isso o cara chegou mais perto com total convicção de que tinha conseguido o beijo tão trabalhado. A menina fechou os olhos e beijou-o longamente. Seu coração quase saia pela boca. Estava ofegante. Quando terminou o beijo o metrô estava parando na sua estação. Levantou-se e despediu-se. Tchau. Tchau - disse o garoto sorridente. A moça foi embora e o objetivo estava concluído. O cara desceu na estação seguinte e não na última como informado.
Aqui vemos mais uma aula de eficiência do moleque. Quando a menina, que ele nem chegou a saber o nome, finalmente se convenceu de que podia estar sendo traída e ia dar o troco ele voltou ao ataque. Mas manteve novamente a regularidade na intensidade do ataque. Como o beijo esperado não veio ele não se ofereceu por mais do que cinco segundos. Tratou de mudar o foco e a abordagem perguntando onde ela ia descer. A saber que desceria na próxima estação jogou com o tempo que corria. E chantageou-a se fazendo de vítima. Nesse momento, a garota já queria e só precisou dar um sinal que foi olhar para os lados a ver se não conhecia ninguém no vagão. Como ele afirmou que desceria na última estação, ela o beijaria e o deixaria ali sem mais complicações. Ou seja, ele simulou um ambiente confortável para ela dar o beijo que também queria.
Como já disse, não sei se posso tirar uma fórmula disso mas posso tentar. Observando a atuação do nosso Dom Juan, vemos que pode haver uma técnica precisa para conquistar alguém. Seria algo como:
  1. Abordagem divertida e educada tentando se fazer íntimo e desinteressado do objetivo.
  2. Coletar informações importantes para atingir o objetivo.
  3. Manter conversa amena buscando pontos de identificação
  4. Declarar o objetivo sem rodeios e no momento mais oportuno.
  5. Retirar ou minimizar os impecílios e obstáculos.
  6. Manter uma regularidade no ataque percebendo as reações da vítima para que ela não se sinta constrangida ou incomodada.
  7. Dar oportunidade para a presa tomar a iniciativa ou pelo menos se sentir como dona da situação.

Podemos ainda resumir mais os sete passos acima:

  1. Abordar
  2. Se informar
  3. Identificar-se
  4. Atacar
  5. Desvencilhar-se dos obstáculos
  6. Regular ataque
  7. Cartada Final

Mas, para que isso funcione é fundamental possuir sensibilidade e interesse pela pessoa. Perceber cada ato, cada sentimento, cada movimento que possa indicar o que a pessoa está sentindo. Vejam que o ataque, passo 4, só deve acontecer se houver predisposição, ou seja, não vai funcionar se não houve conquista da confiança na abordagem e identificação na conversa.

Depois do passo 4 a intensidade do ataque deve aumentar e diminuir na mediada certa para que este não seja insistente, abusivo, grosseiro, inconveniente, etc. Desta fase em diante deve-se usar as informações conseguidas nas fases iniciais. E isso é um ponto favorável pois inicialmente a vítima não sabe o que você quer e por isso te abastece com informações precisas. O passo 5 talvez seja o mais delicado porque não se pode por tudo a perder com um erro grosseiro. É o momento de se mudar o foco se não houver forma de reduzir uma resistência muito grande.

Vejo como um jogo de xadrez onde o parceiro, apesar de sempre jogar melhor do que você, não sabe que está jogando.

Outro ponto importante é jogar com as conveniências. Para muitas pessoas não é conveniente dizer não ou ser ríspido, principalmente para quem se mostra confiável. Educação, cultura, conhecimento são fatores que determinam uma conquista. Mas alerto! não busque tudo isso para dar um beijo no metrô e partir para a próxima se não suas conquistas serão sempre vazias como a do pagodeirinho.